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"William, of Glasgow"

No início do século XIX, a Madeira atravessava uma forte crise económica e social. O comércio do vinho, base da economia da ilha, estava em declínio. Os desastres naturais levaram à fome, ao abandono de vinhedos e ao desemprego em massa. Estes factores, assim como o sobrepovoamento, reduziram o nível de vida, pelo que, para muitos, a emigração foi uma questão de sobrevivência. A situação foi agravada pela tensão religiosa resultante do surgimento dum grupo de convertidos presbiterianos numa ilha tradicionalmente católica.

Duas vagas de madeirenses, portanto, emigraram para a Trinidad a partir de 1846 e por razões muito diferentes. Até certo ponto, ambos os grupos eram refugiados - um grupo composto de camponeses vitimados pela ruína da economia madeirense, e o outro composto por protestantes fugindo à perseguição religiosa.

A partir da década de 1830, grupos de madeirenses começaram a emigrar para Demerara (Guiana Britânica), e os agricultores e os operários sob contrato consideraram esse empreendimento benéfico e satisfatório para ambas as partes. Quando alguns plantadores de cacau da Trinidad solicitaram ao governador ajuda para as suas plantações, os governos da Inglaterra e de Portugal permitiram a emigração madeirense para a Trinidad, já que haviam reconhecido o relativo sucesso da experiência de Demerara a partir de 1835, e isto apesar duma taxa de mortalidade bastante elevada. Acharam provável que os camponeses madeirenses, acostumados à viticultura e a algum cultivo de cana-de-açúcar, pudessem adaptar-se às fazendas de cacau.

No entanto, foram os donos das fazendas de açúcar e não os das plantações de cacau que fretaram, por sua livre iniciativa, o "Senator", o navio que transportou os primeiros 219 imigrantes madeirenses contratados. Chegaram à Trinidad o 9 de Maio de 1846, onze anos depois da chegada dos faialenses. Contrariamente às cláusulas governamentais originais, foram colocados nas áreas rurais em fazendas de cana-de-açúcar - mais rentáveis mas mais rigorosas que as de cacau. As condições nas fazendas de cana-de-açúcar, sob o intenso sol tropical, revelaram-se esmagadoras para os portugueses. Vários dentre eles faleceram e outros mudaram-se para as fazendas de cacau, mais protegidas, ao passo que outros abandonaram definitivamente este tipo de trabalho braçal, e viraram-se para o mundo do comércio lojista. A lei não obrigou os portugueses a permanecerem sob contrato. Do ponto de vista da Trinidad, a Madeira não constituiu uma fonte viável da mão-de-obra, e depois de 1847, a imigração portuguesa não foi considerada como uma solução possível para a situação difícil dos agricultores. Dois grupos de trabalhadores asiáticos sucederam aos madeirenses - os chineses e os indianos; estes últimos começaram a emigrar para a Trinidad um ano antes, em 1845, e continuaram a fazê-lo aos milhares até 1917.

As contratações cessaram em 1847, mas os madeirenses continuaram a emigrar para a Trinidad até ao nosso século, sobretudo para se juntarem a outros portugueses, familiares ou negociantes, já estabelecidos na ilha. Embora essa imigração fosse esporádica e em pequena escala, o consulado honorário de Portugal em Port-of-Spain conseguiu conservar alguns registos de imigração, com pormenores relativos à proveniência e filiação dos imigrantes.

Neste contexto, vale a pena referir também a emigração das Ilhas de Cabo Verde. Devido à fome de 1856, a emigração foi permitida. Os fazendeiros antilhanos acolheram-os mas menos de 100 imigrantes chegaram à Trinidad e em 1856 foi posto fim à imigração. Como a maioria desses imigrantes eram de origem africana, não se sabe se se integraram na comunidade portuguesa.

Dos dois grupos madeirenses do século XIX, os protestantes geraram quer a simpatia quer a hostilidade de vários autores contemporâneos. Apelidados de «esta gente interessante» por um autor3, os refugiados, ou exilados, foram objecto de forte escrutínio pela simples razão das suas especificidades sob vários aspectos. Em primeiro lugar, eles representavam como que uma aberração socio-religiosa na Madeira. Antes e depois da sua partida, foram motivo de acesos debates e discussões. Em segundo lugar, e do ponto de vista da Trinidad, eles foram os primeiros refugiados religiosos a serem acolhidos e, históricamente, constituíram uma minoria dentro da minoria lusófona. Finalmente, muitos deles re-emigraram em massa - e em condições difíceis - para os Estados Unidos. Conseqüentemente, há suficientes fontes escritas a partir das quais se pode obter mais do que um simples olhar curioso sobre as suas origens e destino, embora tanto as fontes como a memória estejam hoje enterradas e esquecidas até pelos descendentes dos presbiterianos portuguesas nas Caraíbas, América do Norte e outros lugares.

Os convertidos protestantes foram conduzidos pelo cirurgião e farmacêutico Robert Reid Kalley, um médico missionário da Igreja Presbiteriana da Escócia, originalmente um ateu.4 A sua paixão como missionário era a China, país que ele nunca esqueceu, mas «a frágil saúde de Margarida, sua esposa, não lhe permite o intento e os colegas recomendam-lhe a ilha da Madeira, um pequeno paraíso de clima suave.»5 Os Kalley chegaram ao Funchal em 1838; mais tarde o médico-missionário foi ao continente para aprender a língua portuguesa e obter a licença de exercício da medicina em Portugal. Ao princípio, Kalley foi benvindo por todos, desde o Bispo - que viria a ser seu amigo - até ao povo. Com os seus próprios recursos abriu um dispensário, um pequeno hospital de doze camas, um consultório e uma farmácia. A sua acção de beneficência estendeu-se à esfera da educação, tendo estabelecido várias escolas primárias, diurnas para crianças e nocturnas para adultos, escolas essas que funcionaram em choupanas no Funchal e em quintas no campo, sobretudo em aldeias como Santo da Serra, Machico e São Roque. Um total aproximado de 2.500 madeirenses inscreveram-se nas escolas domésticas de Kalley.

As autoridades apreciaram, ao princípio, as contribuições filantrópicas no campo da medicina e da educação, pela ajuda prestada aos pobres ao nível da saúde e da alfabetização. Mais tarde, porém, quando a sua pregação a milhares de pessoas, ricas ou pobres, levou a conversão de vários madeirenses à fé evangélica, «o bom doutor inglês» e «o santo inglês» acabou por ser apelidado «Aquele Lobo da Escócia». Não foram só a explicação e a exposição das Escrituras e o cântico dos hinos evangélicos que atraíram tanta gente de tantas proveniências, mas «igualmente aquele homem cuja maneira de viver dava autoridade à sua mensagem e testemunhava do poder de uma vida dedicada.6 Mas a conversão de fiéis também viria a provocar a ira da hierarquia e dos guardiões da tradição.

Em 1843, cinco anos depois da chegada dos Kalley, começaram as detenções. Nesta ilha católica, os adeptos madeirenses de Kalley encontraram muita hostilidade e intolerância. Não podiam possuír nem ler a Bíblia Sagrada, a mesma edição aprovada pela Raínha Dª. Maria II para uso nos Açores - era um «crime de heresia», punível com a excomunhão e/ou a deportação. Os «hereges calvinistas» ou «os bíblias» «eram fugitivos numa terra que era a sua própria terra, e perseguidos na sua ilha natal.»7 Kalley foi preso por um período de seis meses durante o qual o Rev. William Hepburn Hewitson chegou à ilha para uma estadia de um ano (sem ter tido qualquer contacto anterior com Kalley), possibilitando assim continuar o trabalho de Kalley onde este o havia largado; o seu trabalho foi «limitado por decreto» (só um farmacêutico podia exercer farmacologia) e o seu ensino foi «proíbido por lei»; a sua pregação também foi banida.

Por fim Kalley e vários recém-convertidos foram forçados a pedir asilo no estrangeiro, após repetidos episódios de violência e provocação. Segundo Testa:

«os incidentes na Madeira coincidiram com um plano inglês de recrutar trabalhadores para Trindade, Antigua e St.ª (sic) Kitts, nas Antilhas Menores. Barcos ingleses, à procura de trabalhadores, tocavam os portos dos Açores e atracavam no Porto do Funchal, Madeira, no mês de Agosto.»8

O primeiro grupo de 197 refugiados viajou no navio "William, of Glasgow", tendo chegado a Port-of-Spain (a capital da Trinidad) no dia 16 de Setembro de 1846, apenas 4 meses depois da chegada dos primeiros imigrantes madeirenses. Mais de dois mil deixaram a Madeira para Trinidad, St. Kitts, Antigua e St. Vincent. Na Trinidad, também maioritariamente católica nessa época, mas onde a liberdade de culto e a tolerância religiosa estavam reconhecidas, a Igreja da Escócia, pequena mas em crescimento, recebeu-os bem. Todavia, não puderam escapar aos seus compatriotas - confrontaram-se com os outros madeirenses que anteriormente se haviam estabelecido na Trinidad e tiveram que lidar com os mesmos preconceitos que pensavam ter deixado para trás na Madeira.